Inspirações

Surdos de nascença, estes 3 irmãos aprenderam a escutar os outros, sem ouvir.

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O vídeo apresentado é uma curta apresentação do Projecto Escutar (Project Listen em inglês) – uma série de vídeos criada por três irmãos surdos com um objectivo comum: mostrar ao mundo que escutar não é uma capacidade só para os que ouvem. Escutar está muito além da capacidade auditiva de cada um e não é só aquilo que fazemos no dia-a-dia; é algo essencial para a nossa humanidade.

O vídeo está em inglês, pelo que lhe deixamos uma tradução livre de toda a apresentação:

«O meu nome é Ben Featherstone.

Joseph Featherstone.

Zach Featherstone.

Sou surdo, que mais posso dizer?

Eu cresci com cinco irmãos.

Três de nós somos surdos, três de nós conseguem ouvir, mas somos todos muito próximos.

Eu estou muito agradecido por ter dois irmãos mais velhos que são surdos, porque eles me ajudam a perceber algumas coisas que eu não teria compreendido, se eles não fizessem parte da minha vida.

Nós esquiamos frequentemente, nós fazemos rafting em rápidos, fazemos escalada, andamos de longboard, basquetebol, futebol, muitas coisas diferentes.

Temos uma forma diferente de ver a vida porque a maioria das pessoas vê a vida com os seus ouvidos, nós vemo-la através dos nossos olhos.

O que nós temos é língua gestual, por isso nós como que ouvimos com os nossos olhos.

Eu prefiro sinais porque sinto que me consigo expressar melhor.

Falar é a pior parte para mim, porque consigo ouvi-los dizer algumas coisas, mas nem sempre percebo o que estão a dizer.

Eu tinha três anos quando comecei a falar, eles traziam comida e começavam a falar, mas eu tinha de os observar e depois copiar os movimentos que as bocas deles faziam.

Eu recebi um implante coclear quando tinha 22. Antes disso usava aparelhos de audição.

O meu implante coclear ajuda-me mas não é a solução.

Eu consigo ouvir sons à minha volta, mas é uma questão de registar ou compreender o que são.

A mãe e o pai aprenderam língua gestual, tinham intérpretes, deram-me toda a vantagem que podiam, todas as ferramentas.

Eu não recebi o implante coclear para poder ouvir. É uma ferramenta. Eu não fazia ideia de que podia ouvir outras pessoas na casa de banho. Por isso de cada vez que vou a uma casa de banho pública, eu tiro o implante… Maravilhoso.

Quando era pequeno a mãe e o pai abriam a porta e estava sempre lá alguém.

Era quase como magia. Por isso pensámos muito para tentar fazer com que isso acontecesse mas ninguém estava lá! E depois a mãe ia à porta e alguém estava lá.

Por isso perguntámos-lhe, “como é que fazes isto?” e ela disse “vês este botão na porta? Faz barulho.”

Ahhh… barulho!

Não sabíamos que a campainha fazia barulho. Pensávamos que era só um botão engraçado. Não sabíamos que superfícies diferentes faziam sons como o chão ou a parede.

Quando comecei a ouvir coisas, comecei a ouvir música. Eu só toco um piano muito básico mas ainda é suficiente para mim. Se posso tocar, estou feliz. Eu adoro sentir as vibrações profundas do piano. Ressoam na minha alma.

Pode ser difícil ser surdo, não por não podermos fazer coisas. Isso é de loucos; eu estou a tirar medicina agora. Sendo surdo, eu posso fazer tudo. Quero dizer, eu fui instrutor de ski, guia de rafting em rápidos, e agora estou a tirar um curso.

Mas pode ser mais complicado porque vivo num mundo diferente. Pode ser um pouco isolador. Pode ser um pouco frustrante porque tentamos comunicar, tentamos sentir-nos respeitados e iguais, mas nem sempre recebemos isso.

Se há um grupo com mais de 4 pessoas eu perco-me. Fico literalmente como um barco no meio de uma grande tempestade.

Mas se uma pessoa comunicar e se ligar, ajuda a sentir-me incluído e isso é maravilhoso.

Sempre que começamos a brincar, é aí que me sinto verdadeiramente ligado.

Eu penso sempre, que tipo de pessoa seria se pudesse ouvir? E não acho que fosse o Josey. Eu seria… um gajo qualquer que pode ouvir.

Há tantas coisas boas em ser surdo.

Eu adoro… eu adoro.

Eu estou muito feliz por ser surdo.

Por causa de ser surdo, sinto mais responsabilidade para dar de volta aos outros, mais responsabilidade para trabalhar no duro.

Nós podemos ouvir sem som. Eu acho que é mais uma questão de tentarmos ouvir com os nossos olhos, com a nossa mente, com o nosso coração, tentarmos ligar-nos.

Não importa se ouvimos com os nossos olhos ou com os nossos ouvidos. Não importa. O que importa é escutarmos