Heróis

Neste poderoso testemunho, ela conta a sua história e mostra-nos “O que nos torna humanos”.

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Este vídeo faz parte do documentário de três volumes Human, que pretende capturar a essência do que nos torna humanos. Nestes 3 volumes, mais de 2000 mulheres e homens partilham episódios reais das suas vidas.

Francine Christophe é uma dessas pessoas.

Aqui, deixamos-lhe a tradução do seu testemunho:

«O meu nome é Francine Christophe. Nasci a 18 de Agosto de 1933. 1933 foi o ano em que o Hitler subiu ao poder.

Aqui está. Esta é a minha estrela. Tinha que a usar no peito, claro, como todos os Judeus. É grande não é? Especialmente para uma criança. Eu tinha apenas 8 anos.

Quando eu estava no campo Bergen-Belsen, passou-se algo de verdadeiramente extraordinário. Eu lembro-me que enquanto filhos dos prisioneiros de guerra, nós eramos privilegiados. Porque nós podíamos trazer connosco algo de França, um pequeno saco, com duas ou três coisinhas. Uma senhora trouxe chocolate, outra um pouco de açúcar, uma outra um punhado de arroz.

A minha mãe levou dois pedaços de chocolate. E ela disse-me “Vamos guardar isto para o dia em que eu vir que tu estás completamente esfomeada e que precisas de ajuda. Eu vou dar-te este chocolate e tu vais-te sentir melhor.”

Uma das mulheres que estava presa connosco estava grávida. Não se notava, de tão magra que estava… Mas chegou o dia em que ela entrou em trabalho de parto. Ela foi levada ao hospital do campo com a minha mãe, que era a nossa chefe de barraca. E antes de saírem, a minha mãe disse-me “Lembras-te do chocolate que estava a guardar para ti?” “Sim, mamã.” “Como te sentes?” “Bem, mamã. Vou ficar bem.” “Então, se não te importares, eu gostava de dar este chocolate à nossa amiga Hélène. Porque dar à luz aqui não vai ser fácil. Ela pode morrer. E se eu lhe der o chocolate, pode ser que a ajude.” “Sim, mamã. Dá-lho.”

Hélène deu à luz o bebé. Uma coisa pequenina, fraca. Ela comeu o chocolate. Ela não morreu. Ela voltou para a barraca. O bebé nunca chorou. Nunca! Nem sequer gemia. 6 meses depois o campo foi libertado. Eles desenrolaram o bebé dos seus paninhos e o bebé gritou. Foi nesse momento que ele nasceu. Nós trouxemo-lo de volta a França. Uma coisinha mínima, com 6 meses.

Há uns anos, a minha filha perguntou-me “Mamã, se os deportados tivessem tido psicólogos ou psiquiatras quando voltaram, talvez tivesse sido mais fácil para vocês.” Eu respondi-lhe “Seguramente, mas não havia nada disso. Ninguém pensava em distúrbios mentais. Mas tu dás-me uma boa ideia. Vamos fazer uma conferência neste tópico.”

Eu organizei uma palestra sobre o tema: “Se os sobreviventes dos campos de concentração tivessem tido acompanhamento em 1945, o que é que teria acontecido?”. A palestra atraiu muita gente. Pessoas mais velhas, sobreviventes, historiadores, curiosos e muitos psicólogos, psiquiatras, psicoterapeutas. Muito interessante. Muitas ideias emergiram. Foi fantástico. 

E depois uma senhora subiu ao pódio e disse “Eu vivo em Marselha, onde sou psiquiatra. Antes de fazer o meu discurso, tenho algo para dar à Sra. Francine Christophe.”, ou seja, a mim. Ela procurou dentro do seu bolso e tirou de lá um pedaço de chocolate. Ela deu-mo e disse “Eu sou o bebé.”