Curiosidades

Estes investigadores descobriram uma nova espécie de cientistas, que nos permite conhecer melhor a mãe-natureza.

Quando pensa em cientista, vêm-lhe logo à cabeça aqueles senhores de bata branca e cabelos despenteados? A nós também, mas a verdade é que há variadíssimos tipos de cientistas, claro. Os mais recentes são os animais-cientistas!

Passamos a explicar: Os animais-cientistas não estão, logicamente, em laboratórios a estudar fórmulas químicas. Contudo, são importantíssimos para as novas descobertas que se têm vindo a fazer em ciência. (E não, não estamos a falar dos animais em laboratório que são submetidos a testes, muitas vezes cruéis.)

Estamos sim a falar dos animais que transportam nos seus corpos pequeníssimos dispositivos que permitem aos cientistas efetuar observações, seja de padrões de migração, de temperaturas das marés, ou de outro género qualquer.

Sara Iverson, a diretora científica da Rede de Rastreamento Oceânico da Universidade de Dalhousie, no Canadá, afirma que “fizemos avanços tremendos ao usar animais para atuarem como oceanógrafos”.

Ela é a co-autora de um de dois artigos científicos que se debruçam sobre os avanços feitos recentemente ao usar ferramentas de localização e sensores que registam não apenas as alterações físicas de localização dos animais tanto no mar, como em terra e no ar, mas também para medir as mudanças nos seus corpos e no próprio ambiente. Os dados que daí resultam irão ajudar a proteger os animais, os humanos e, em consequência, o planeta.

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Com esta nova forma de pesquisa, focas tornam-se oceanógrafas das profundezas; rotas de migração de cegonhas passam a ser registadas através de etiquetas de GPS alimentadas a energia solar; bandos de macacos rivais conseguem ser analisados para se determinar quem tem vantagem tática e as caçadas dos pumas podem ser estudadas para medir como a energia dispendida se relaciona com o tamanho da presa. Tudo isto tem sido possível graças aos avanços tecnológicos que permitem que os dispositivos sejam cada vez menores – reduziram de 250g para apenas 20g na última década, interferindo menos com a vida do seu transportador – e também cada vez mais duradouros e capazes, para que sejam aplicados tanto em organismos marinhos como terrestres.

Um dos avanços mais importantes é que, ao contrário do que acontecia no passado, os investigadores já não precisam de capturar um animal que tenha os dispositivos para recolher os dados acumulados nele. Atualmente os aparelhos enviam as informações para satélites ou outros meios, mesmo que estas venham dos fundos gelados do Ártico! O animal portador já não tem de ser recapturado para que a pesquisa avance.
O consequente volume de dados é um desafio, mas é também uma oportunidade para proteger melhor as espécies, enquanto compreendemos os ambientes em que vivem e se movem e como estes estão a mudar.

Estes avanços podem, como referimos, ajudar a proteger os animais e os seres humanos ao permitirem a observações de padrões que se alteram.

“Os responsáveis pela vida selvagem estão a usar dispositivos de GPS que enviam alertas em SMS quando os elefantes marcados estão a atravessar áreas pré-definidas, para minimizar os conflitos entre humanos e animais selvagens.”dizem Roland Kays e a sua equipa, do Museu de Ciências Naturais da Carolina do Norte.

Segundo Sara Iverson, o mesmo tem vindo já a ser feito com tubarões brancos ao largo da costa Oeste da Austrália, para manter as pessoas fora da água em alturas de passagem deste animal, evitando ataques.

Em alguns aspetos, os avanços feitos no rastreamento de organismos marinhos, através da utilização de dispositivos com sonar ou registados por satélite, são ainda mais impressionantes do que aqueles feitos nos de rastreamento de animais terrestres.

“Fomos capazes de reunir mais de 200.000 perfis de temperatura e salinidade do Oceano Ártico, com os dispositivos colocados em narvais e belugas.”

Os leões marinhos, nos quais foram colocados os dispositivos, ajudaram a compreender o perigoso – e difícil de alcançar nos meses de Inverno! – Mar de Bering.

Para os oceanos há duas tecnologias-chave, segundo Sara Iverson: os dispositivos acústicos, que enviam sinais acústicos para recetores em bóias flutuantes ou em pontos fixos; e os dispositivos de satélite, que são monitorizados por satélite.

Há também uma outra tecnologia chamada de transceptor móvel que “pode ser carregado por animais de grande porte, como por exemplo as focas, e que transmite a sua localização à medida que se deslocam pelos oceanos mas também a de qualquer animal marcado que passe por elas.” – explica Sara Iverson.

Tal como os outros dispositivos, os acústicos também têm vindo a reduzir de peso – atingindo agora uns frugais 1.4g – enquanto aumentam a vida útil das suas baterias.

“Sugerimos que a nova abordagem que encara os animais como sensores do ambiente naturalmente evoluídos tem o potencial de nos ajudar a monitorizar o planeta de forma totalmente nova.” – dizem Kays e a sua equipa.

“Mostrar como os animais se adaptam às novas condições de forma imprevisível oferece uma nova visão do futuro da ecologia animal no Antropoceno.” – concluíram os investigadores.

Para saber mais, pode encontrar o artigo original no Washington Post

Fotos de Hemi e Nims2000