Heróis

Estes dois amigos criaram uma forma muito especial de ajudar os refugiados sírios.

Somos dois amigos, Nuno Félix e Pedro Policarpo, ambos casados, ambos pais de quatro filhos menores e a nosso cargo. Sabemos o que temos. Como é bom viver em liberdade, em paz e segurança, com as pessoas que amamos, criando e educando os nossos filhos de acordo com os mesmos valores humanistas e princípios da solidariedade e da tolerância que foram basilares na fundação desta União Europeia.
Mas a maior crise humanitária na Europa desde a II Guerra Mundial está a acontecer:
Há centenas de milhares de pessoas, milhares de famílias fugidas de atrocidades, em desespero e que padecem na soleira da porta da UE.
Há crianças que dão à costa, afogadas à vista das nossas praias.
E os países e instituições europeias? O que têm feito por estas famílias e por estas crianças?
A nossa missão será ajudar a salvar #familias_como_as_nossas que a nosso convite voluntariamente se queiram candidatar a asilo no nosso país. 
Cada uma das nossas duas famílias acolherá outra, e cada família que a nós se juntar, disponibilizando e levando o seu carro de todos os dias, aquele com que faz a vida familiar e transporta os seus próprios filhos, acolherá outra família como a sua, que neste momento exaspera às portas da Europa por consensos que não acontecem e por auxílio que tarda em chegar.
Na viagem de ida, aproveitaremos o espaço disponível nos nossos carros para levar ajuda humanitária, nomeadamente, dispositivos médicos e medicamentos.
Chegados ao local, convidaremos essas famílias com base nos seguintes critérios: 
(i)  O número de filhos menores de 12 anos; 
(ii) O nível de precariedade com que se encontram no local.
Estas famílias serão previamente seleccionadas no local por organizações humanitárias que já ali se encontram e com as quais estamos em contacto permanente.
Por muito legítimo que seja o desespero de alguns pais dispostos a tudo para salvar os seus filhos, não promoveremos o desmembramento de famílias nucleares. 
Chegados a Portugal, providenciaremos o alojamento destas famílias por meios próprios, bem como asseguraremos, a título particular, a sua subsistência e acompanhamento durante todo o processo de pedido de asilo como refugiados de guerra.
Em poucos anos os nossos filhos vão perguntar-nos o que fizemos para ajudar. Não precisamos de esperar que alguém nos diga que podemos fazer o que está correto e o que é justo, pois fazer o bem não pode ser ilegal, ainda assim, o que fizermos será no estrito respeito pelas leis vigentes no nosso país e nas dos países por onde passar a #caravana_familias_como_as_nossas.
Todos os dias, o número de pessoas interessadas em juntarem-se a nós tem crescido, pelo que não é possível determinar neste preciso momento a dimensão da caravana. O destino é a Hungria ou a Croácia, de acordo com o local que seja mais seguro e onde a ajuda seja mais necessária no momento aproximado da chegada, uma vez que as organizações com as quais estamos em contacto, como a Cáritas Internacional e o ACNUR, também elas se movimentam rapidamente no terreno. Guiaremos as carrinhas com que levamos os nossos filhos todos os dias à escola, e na fronteira balcânica da União Europeia, cada um de nós ajudará a salvar #familias_como_as_nossas.

Esta é a carta escrita por Nuno e Pedro para apresentação do projecto Famílias Como As Nossas.

Partiram dia 25 de Setembro com rumo à Croácia, onde queriam ir buscar famílias de refugiados para as trazer para Portugal em segurança. Já em terras lusitanas o objectivo era dar-lhes todo o apoio logístico e burocrático até que o processo de reconhecimento do estatuto do refugiado lhes fosse concedido.

Depois de alguns sustos, como o que apanharam na fronteira austríaca onde tiveram inclusivamente um encontro com a polícia – cujos detalhes pode ler em profundidade neste artigo da Visãoa primeira família síria chegou hoje a Portugal. A família está em segurança e Nuno e Pedro estão, seguramente, felizes com o desfecho desta primeira acção.

Para quem quiser ajudar mas não tiver possibilidade de ir ao terreno buscar famílias, as comunidades It’s Our Problem e A solidariedade não conhece fronteiras, criaram diversos pontos espalhados por Portugal onde se recolhem donativos, que podem variar entre alimentos não perecíveis, comida de bebé, roupas quentes de homem, mulher e criança (incluindo bebés), brinquedos, sapatos e artigos de higiene.

Imagem de Ana Cancela

Imagem de Ana Cancela

A recolha é feita até 10 de Outubro, dia em que um camião TIR partirá de Famalicão, rumo aos campos de refugiados que se espalham entre a Croácia e a Macedónia.

Para mais informações, não deixe de assistir à entrevista de Nuno Félix, conduzida pela RTP.

São acções como esta que fazem toda a diferença e devem ser replicadas. Podem não mudar a vida de todos, ou solucionar o problema, mas têm um impacto incomensurável nas vidas destas famílias e, só por isso, valem sempre a pena.

Créditos da fotografia de capa para Skeeze.